Miami Vice

Este "Miami Vice" é feito da costela do seu longa-metragem anterior, "Colateral" e não supera o seu antecessor. Nem chega a arranhar a pintura. Há uma abordagem semelhante porque tal e qual aquele é uma história envolvendo criminosos, há briga em uma boate lotada de gente bonita, a noite é o principal cenário dos acontecimentos, e a figura de Jamie Foxx reaparece - muito diferente, é verdade.
Dois tiras americanos de Miami (Foxx e Colin Farrell) se infiltram na quadrilha de um grande traficante internacional, cuja atuação tem ramificações em diferentes países da América do Sul, incluindo o Brasil. Para serem aceitos pelo grupo, os tiras precisam convencer os traficantes, em especial o braço direito do chefão, Isabella, vivida por Gong Li.
Os policiais são tão bem sucedidos que o personagem de Farrell vai além, envolvendo-se com Isabella. As coisas começam a desandar quando um dos traficantes alimenta uma desconfiança dos dois novatos que só piora com a competência da dupla. "Eles são muito bons, isso não é normal", diz, insinuando que possam ser agentes da polícia americana. As coisas pioram quando às desconfianças se juntam o ciúme desse traficante que descobre o envolvimento de Isabella.
Daí pra frente, o filme vai se aproximando do desfecho com risco para todos os envolvidos. Tudo só irá se deslindar num encontro para recuperar uma mercadoria desviada, que naturalmente vai render o momento de tiroteios sem fim e mortos a torto e a direito.
O trio de atores não está mal, mas Jamie Foxx mesmo em papel reduzido, consegue facilmente eclipsar o galã Farrell. Em algum momento se desenha na trama que o personagem de Farrell poderá se encontrar em conflito entre dois mundos. O da lei e o do crime. Poderia ser um bom caminho para se trilhar, o que poderia render maior densidade ao papel dos policiais e à própria pelicula. Mas essa angústia é só insinuada, logo se desanuviando o céu. O desfecho segue o caminho do convencional. Gong Li está ótima, assim como está muito bem o Luis Tosar, que interpreta o papel do poderoso traficante Jesus.
O filme caminha morno demais até decolar e começar a prender a atenção, mesmo com a abertura suntuosa e movimentada (que, como já dito, faz o link com o filme anterior de Mann; mas também serve para apresentar os heróis da trama).
As cenas de sexo pareceram gratuitas e absolutamente insípidas, quando não forçadas. A cena de Foxx com a bela namorada nua no banheiro é bonita de se ver, mas não parece acrescentar grande coisa à trama.
É um filme que respeita os seus momentos de silêncio e Mann parece explorar o silêncio dos personagens, que falam com reações sem necessariamente a palavra converter-se em indispensável. Há seqüências inteiras feitas de silêncio e são alguns dos melhores momentos do filme. É um filme com muitas qualidades, mas não empolga tanto quanto poderia. É um filme mais sombrio que propriamente divertido, e isso parece ter sido mais incapacidade do longa que uma intenção consciente do seu diretor.
Título original: Miami Vice/ Direção: Michael Mann/ Roteiro: Michael Mann, baseado em série de TV criada por Anthony Yerkovich/ Elenco: Colin Farrell, Jamie Foxx, Gong Li.